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20 de junho de 2008

Barack Obama e o poder da Internet

(tradução do original: Barack Obama et le pouvoir d'Internet, de Sérgio Romano)

A Campanha eleitoral presidencial nos EUA já entrou para a história por numerosas razões: o formidável crescimento de um candidato negro, a tenacidade de uma brilhante candidatura feminina, o retorno à cena de um antigo veterano do Vietnam, a ruptura de muitos tabus, desde de o racial até o sexual.

Mas os sociólogos da política chegaram provavelmente à conclusão que a verdadeira novidade dos últimos meses é outra coisa : o uso eleitoral da Internet.


Depois de ser longamente utilizada de maneira convencional, a web mudou as regras do jogo com os efeitos que se espalharam provavelmente por outras democracias.

A inovação mais revolucionária concerne ao financiamento dos candidatos.

Depois de uma primeira tentativa de Howard Dean, governador de Vermont e rival e John Kerry antes da convenção democrata de 2004, a maquina eleitoral de Barack Obama elaborou um novo método que deu os resultados extraordinários.

Todos os internautas que entram no site do candidato democrata e se interessam recebem, junto com as informações tradicionais da Campanha eleitoral, um convite a fazer uma contribuição mínima de $25,00.

A inovação a qual a Campanha de Obama recorreu várias vezes consiste em não aceitar a oferta de contribuição a não ser que uma outra pessoa se declare pronta a aportar um montante idêntico.

Detectados os “gêmeos”, o primeiro contribuinte recebe o endereço de e-mail do outro e pode tomar contato com ele por uma espécie de aperto de mão virtual.

O sistema modificou completamente as relações de forças entre os dois principais candidatos à investidura do partido democrata.

Ao fim da campanha, Hillary Clinton tinha uma reserva de 218 milhões de dólares, colhidos pelo tradicional “fund raising” americano por banquetes, reuniões a portas fechadas com representantes dos grandes interesses econômicos e sindicais.

Obama tinha seguido a tradição antes de optar pelo novo método. O Senador de Illinois chegou a levantar assim, em média, até 40 milhões de dólares por mês.

Mas não se trata apenas de quantidade.

O candidato, que faz confiança somente à generosidade de grandes doadores, contrata pois uma dívida que ele deverá pagar durante sua administração.

Por outro lado, aquele que recebe a oferta de 1 Milhão e meio de simpatizantes tem uma chance maior de cumprir seu programa sem ficar sob a pressão dos grandes interesses econômicos.

Graças ao trabalho de incansáveis formigas de seu aparelho de campanha eleitoral, Obama democratizou a coleta de fundos e está hoje muito mais livre que seu adversário.

A Internet teve outros efeitos.

Graças à multiplicação de blogs, de jornais on line, dos correios, dos SMS, e dos vídeos, o candidato está permanentemente em cena. Ele não pode nada dizer sem que suas palavras e seu estilo não sejam pesados, comparados, passados ao crivo (peneirados).

Esta visibilidade total pode apresentar perigos. Em uma arena povoada por milhões de espectadores, o candidato pode adaptar sua linguagem ao conformismo da maioria. O mundo da transparência pode então se tornar aquele da demagogia.

(SERGIO ROMANO é historiador e editorialista)